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Equador não explorará seu petróleo amazônico

A imprensa noticiou timidamente esta semana o fato de o Equador ter firmado no último dia 3 de agosto um acordo pelo qual se compromete a deixar no subsolo durante pelo menos mais dez anos uma das suas mais importantes reservas de petróleo. Em troca, o país receberá da comunidade internacional, de outros países e de doadores privados cerca de 3,6 bilhões de dólares de indenização. O fato, nos parece, merece mais atenção.

Antes de mais nada porque as tais reservas, concentradas nos campos petrolíferos de Ishpingo, Tiputini e Tambococha, encontram-se integralmente na região amazônica e, em grande parte, sob o Parque Nacional do Yasuni, que, com seus 950 000 hectares de selva, constitui uma das mais importantes reservas de biodiversidade do mundo. Ademais, sabe-se que em seu interior ainda há pelo menos dois grupos indígenas sem nenhum ou com pouco contato com a “civilização”. E mesmo com a mais moderna das tecnologias e todo o cuidado, a exploração de petróleo em uma importante reserva de biodiversidade sempre terá impactos negativos. O Golfo do México vem nos mostrando que nós nunca estamos inteiramente no controle.

Por outro lado, como ressaltou a ministra equatoriana do patrimônio, Maria Fernanda Espinosa, a decisão de não explorar esses campos foi extremamente difícil, uma vez que eles concentram 20% do total das reservas petrolíferas confirmadas do país – ou cerca de 846 milhões de barris. O Equador é, entre os membros da OPEP, o que possui as menores reservas.

As doações serão depositadas em um fundo administrado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e controlado pelo próprio Equador. Alemanha, Espanha, Bélgica e França já anunciaram que farão contribuições.

O cálculo da indenização foi feito com base no Protocolo de Quioto. Deixando de explorar essas reservas de petróleo, o Equador evitaria a emissão para a atmosfera de 407 milhões de toneladas de CO2. Isso equivale às emissões anuais de um país como o Brasil ou a França. Assim, considerando o preço atual da tonelada de carbono, chegou-se ao valor de 7 bilhões de dólares para a não emissão desses gases, e o Equador agora pede à comunidade internacional que arque com a metade dessa quantia, pagável em 12 anos.

Caso o valor não seja atingido, o país recuperará o direito a explorar as reservas. Por outro lado, os doadores receberão títulos a serem pagos pelo país caso ele não cumpra com a sua parte do acordo e decida levar adiante a exploração.

O jornal francês Le Monde lembra que em 2009, durante a Conferência de Copenhagen, a iniciativa estava prestes a ser assinada quando o presidente equatoriano Rafael Corrêa suspendeu a assinatura do documento de criação do fundo que receberá as doações. “Economista de esquerda tardiamente convertido à defesa do meio ambiente, o presidente equatoriano criticaria algumas semanas mais tarde o “ambientalismo infantil”, relata o jornal. (http://www.lemonde.fr/planete/article/2010/08/03/l-equateur-renonce-a-son-petrole-amazonien_1395072_3244.html)

Outra dificuldade apontada pela ministra do patrimônio equatoriana foi o ineditismo da inciativa. Segundo ela, por falta de jurisprudência sobre casos semelhantes, por falta de experiências internacionais comparáveis, teria sido necessária muita criatividade para dar forma à idéia. Ao fim, cinco áreas foram definidas como destinatárias do dinheiro depositado no fundo: energias renováveis, reflorestamento, reservas naturais, desenvolvimento social da Amazônia e ciência e tecnologia.

O Le Monde aponta ainda que o fato do fundo ser gerido pelo PNUMA impede que ele fique sujeito aos humores políticos do Equador e que a maior garantia de viabilidade do projeto é o apoio que ele tem recebido da população do país. Segundo uma sondagem, 76% dos equatorianos apoiariam a não-exploração de petróleo na região do parque Yasuni. “Um recorde em um país pouco habituado ao consenso”, afirma o jornal.

Sem conhecer os termos do acordo, só podemos louvar a iniciativa, mas temos que torcer para que o clima político favorável ao acordo se mantenha por muitos e muitos anos. Um único presidente demagogo e pouco afeito à democracia pode, alegando a mesma ladainha patriótica e nacionalista que todos já conhecemos, romper com o acordo, explorar as ditas reservas e se recusar a devolver os fundos. A soberania nacional já foi usada, mais de uma vez, para justificar esse tipo de coisa. Evo Morales e Hugo Chaves estão aí de prova.

Por outro lado, a comunidade internacional geralmente tem muito pouco a fazer, juridicamente falando, nesses casos. Que tribunal seria competente para avaliar e julgar um eventual descumprimento do acordo por parte do Equador? Que sanções poderiam ser impostas ao país? Quem souber a resposta, ou conhecer os termos do acordo, que o diga. E isso é um convite a todos vocês.

Para saber mais, leia também http://www.oecoamazonia.com/br/reportagens/equador/53-equador-mostra-vontade-politica-para-salvar-yasuni

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Verão sem ar condicionado

Como já noticiamos aqui no Econosco, esse verão tem sido, até agora, muito quente na Europa. Em Karlsruhe, por exemplo, que fica na região mais quente (ou, para nós cariocas, menos fria) da Alemanha, durante mais de duas semanas os termômetros passaram diariamente dos trinta e poucos graus, o que, segundo comenta-se por aqui, não acontecia desde 2003, quando alguns idosos chegaram a morrer por causa do calor.

E uma coisa chama a atenção, pelo menos de quem sempre viveu no Rio de Janeiro: aqui não tem ar-condicionado. Nem nas casas, nem no transporte público (fora nos trens mais caros), nem na imensa – gigantesca – maioria dos prédios. Em suma, aqui também faz calor, sim, mas ninguém parece estar preparado para isso. Até o começo do verão não havia ventiladores à venda, agora esgotaram-se os estoques.

Outro exemplo: o mais importante meio de transporte público que circula pela maioria das cidades médias européias são os “trams”, trens elétricos de superfície. Pois bem, os “trams” daqui não têm ar-condicionado (ou, se têm, estes parecem não funcionar) e, como eles são feitos para ficarem aquecidos no inverno, a única coisa que abre das janelas é uma pequena escotilha no alto. Dá pra imaginar a temperatura (e o buquê, diga-se de passagem)?

É desconfortável? Sim. Mas também (quase) não mata. E a impressão que se tem é de que o impacto ambiental nessa região diminui muito nessa época do ano. É só um palpite, mas veja-se: a calefação que funcionou durante todo o inverno (a nossa ficou ligada cerca de 4 meses) está desligada e, não havendo ar-condicionado, o consumo de eletricidade e de gás não tem porque não cair drasticamente. Além disso, aumenta muito o número de pessoas que passam a utilizar a bicicleta como principal meio de transporte.

Talvez a comparação entre a pequena Karlsruhe e a grande cidade do Rio não caiba, mas vale a reflexão.

Piscina pública em Karlsruhe às margens do rio Reno (Julho/2010).

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Polêmica sobre os carros do Tour de France

A chegada do calor na Europa vem, há anos, acompanhada da realização das maiores provas ciclísticas do mundo. Milan-San Remo, Paris-Roubaix, o Giro d’Itália, o Tour da Suíça, a Volta da Espanha e a mais famosa de todas, o Tour de France, para citar apenas alguns exemplos. Para quem gosta, é uma festa.

(Foto: www.rai.it)

E o melhor de tudo, uma festa que gira em torno de um esporte cujo impacto ambiental é mínimo, certo? Depende.

As grandes provas ciclísticas são compostas de um número razoavelmente grande de corredores (o Tour de France tem cerca de 200 participantes, divididos em 22 equipes). Fora as embalagens de comida e garrafas plásticas que atiram para os lados da estrada, esses atletas não causam impacto ambiental quase nenhum durante a competição. E as tais garrafas (caramanholas, no jargão) ainda por cima são quase todas recolhidas pelos fãs como souvenires.

Tradicionalmente, porém, esses atletas são seguidos, durante todo o percurso, por uma verdadeira caravana de carros e motos, alguns deles essenciais, como os que transportam os organizadores da prova, mecânicos, médicos, a imprensa e a polícia que abre o caminho em meio aos fãs (sim, eles se amontoam aos milhares à beira da estrada, chegando a causar acidentes).

Outros, porém, vêm sendo vistos como dispensáveis e até prejudiciais ao esporte. Trata-se dos carros que transportam os chamados diretores esportivos de cada equipe, uma espécie de técnico que ajusta, durante a prova, a estratégia dos seus comandados.

A polêmica sobre se esses diretores devem ou não continuar a acompanhar as provas foi recentemente objeto de uma matéria na revista francesa especializada Vélo Magazine e em meio a diversos argumentos de ordem técnica e estratégica, alega-se que esses carros, além de tudo, representam um impacto ambiental significativo dentro do contexto.

A conta apresentada pela revista, usando como exemplo o Tour de France, é a seguinte: cada uma das 22 equipes participantes tem direito a dois carros de diretores esportivos durante quase todo o trajeto. Cada um desses carros, cheio de bicicletas no teto, emitiria cerca de 270 gCO2/km. O Tour desse ano percorrerá 3.642 km em 23 etapas, o que significa que a abolição dos carros dos diretores esportivos economizaria, sozinha, algo em torno de 43 toneladas de CO2 em emissões, em um esporte que sempre teve fama de “limpo”.

Para maiores informações sobre o Tour de France, acesse www.letour.fr.

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