Ética, estética e sustentabilidade não é mais uma escolha no mundo da moda
- 30 de abr.
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Sustentável Beleza no IED Fashion Revolution 2026
O IED São Paulo recebeu o segundo encontro da plataforma Sustentável Beleza, integrando a programação da Semana Fashion Revolution 2026, um dos movimentos globais mais relevantes quando o assunto é transformação na indústria da moda.
O convite partiu de Antonio Slusarz, coordenador da graduação em Design de Moda e da pós-graduação em Marketing e Comunicação de Moda do IED-SP, reforçando o papel da academia como espaço essencial para a reflexão crítica e a construção de novos paradigmas para o setor.
Mais do que um evento sobre moda, o encontro trouxe uma discussão profunda sobre os desafios enfrentados por empresas, serviços e produtos que buscam se estruturar sobre o tripé da ética, estética e sustentabilidade. Um caminho que exige não apenas inovação, mas sobretudo coragem para rever processos, questionar modelos de negócio e transformar o mindset corporativo diante das exigências de uma agenda ESG cada vez mais incontornável.
Com a crescente demanda por soluções sustentáveis em todas as áreas da criação humana, a plataforma Sustentável Beleza, idealizada pela designer e escritora Valéria Midena em parceria com Sérgio Lopes, sócio-diretor da Conteúdos Diversos, propõe uma reflexão urgente e necessária sobre o papel dos criativos na construção de futuros possíveis.
A beleza como resultado de um valor
Abrindo o encontro, Valéria Midena trouxe uma provocação conceitual poderosa: somos, ao mesmo tempo, seres biológicos e culturais. E quando a estética emerge de boas práticas, de escolhas responsáveis, ela deixa de ser superficial, passa a ser expressão de uma ética.
Se nada tem mais valor do que o planeta que sustenta a vida, como justificar que, em nome de um conceito distorcido de beleza, seguimos alimentando modelos de consumo que degradam exatamente aquilo de que dependemos?

Esse paradoxo entre nossa condição biológica e nossas construções culturais, foi o ponto de partida para uma reflexão central: é preciso colocar criatividade, imaginação e tecnologia a serviço de um design que não apenas atenda desejos, mas responda com responsabilidade aos desafios ambientais, sociais e de governança do nosso tempo.
Do discurso à prática: experiências que apontam caminhos
A conversa ganhou concretude com a participação de duas convidadas que atuam na linha de frente da transformação do setor.
Agustina Comas, pioneira do upcycling industrial no Brasil, trouxe uma visão pragmática sobre escala e impacto. Seu trabalho mostra que é possível transformar resíduos têxteis em novos produtos com consistência produtiva. Um passo fundamental para que a sustentabilidade deixe de ser nicho e passe a operar em nível sistêmico.

Cristiana Pereira Barreto, designer, empresária e sócia do Instituto Renato Imbroisi, apresentou uma abordagem que conecta indústria e tradição. Em Muquém, no sul de Minas Gerais, coordena uma rede de cerca de 70 artesãs, entre bordadeiras e tecelãs, que transformam resíduos têxteis em fios utilizados em teares manuais. Uma cadeia produtiva que gera valor social, cultural e econômico.
Entre os principais pontos levantados:
A necessidade de desenvolver métodos e tecnologias que viabilizem o reaproveitamento de resíduos em escala
O desafio de estruturar cadeias produtivas mais justas, que reconheçam o valor da mão de obra artesanal
A distorção de preços ao longo da cadeia, onde o produto final muitas vezes chega ao consumidor com valores desproporcionais ao trabalho de origem
A urgência de reposicionar o conceito de “custo”, especialmente quando falamos de resíduos que já fazem parte do lucro industrial
Como destacou Agustina, há uma inversão evidente: o resíduo, que deveria ser tratado como custo zero ou até gerar custo para descarte responsável, torna-se matéria-prima valiosa nas mãos de quem trabalha com upcycling. É nesse processo que surgem o único, o diferente e, paradoxalmente, o mais significativo valor.
Moda, novidade e o vazio do excesso
Em um dos momentos mais provocativos do encontro, Valéria compartilhou uma reflexão a partir de uma entrevista com Glória Kalil: moda e beleza não têm, necessariamente, uma relação direta.
A moda, em essência, busca o novo, não o belo.
A partir dessa ideia, emergiu uma pergunta inevitável: o que estamos realmente buscando ao sustentar uma indústria baseada em volumes massivos de produção e consumo?
O exemplo do fenômeno Barbie (lançamento global de produtos em escala massiva) ilustra com clareza esse descompasso. Como observou Agustina, é possível prever o impacto: estoques excedentes e, inevitavelmente, mais resíduos.
O deserto do Atacama vai ficar rosa em poucos meses
Agustina, referindo-se ao já conhecido acúmulo de roupas descartadas na região.
Entre o “high fashion” e o “fast fashion”, a discussão revelou não apenas extremos estéticos, mas também distorções profundas nos modelos de produção e consumo que sustentam o setor.
Valor, preço e o que realmente importa
Outro ponto central foi a desconexão entre valor e preço. Produtos que envolvem processos artesanais, intensivos em conhecimento e trabalho humano, frequentemente chegam ao mercado com preços elevados, mas ainda assim subvalorizados em termos simbólicos.
As cadeias tradicionais absorvem margens que pouco dialogam com a origem do produto.

O contraste com o Japão, onde artesãos são reconhecidos como “tesouros vivos”, evidencia o quanto ainda precisamos evoluir na valorização cultural do fazer manual.
Nesse contexto, a provocação do sociólogo Roberto DaMatta, citada no encontro, ecoa como um convite urgente à reflexão:
O que é suficiente?
Responder a essa pergunta, individual e coletivamente, talvez seja um dos maiores desafios da nossa era.
Um movimento em construção
Este foi o segundo encontro da plataforma Sustentável Beleza. O primeiro abordou a relação entre finanças sustentáveis e design, ampliando o diálogo para além dos campos tradicionais da criação.
Nesta edição dedicada à moda, foram quase duas horas de trocas, insights e provocações que apontam para uma transformação necessária e já em curso.
Em breve, o conteúdo completo estará disponível nas plataformas do projeto, ampliando o alcance dessas discussões e fortalecendo uma rede de profissionais comprometidos com a construção de novos modelos.
Fashion Revolution: o contexto que nos convoca
O Fashion Revolution é um movimento global criado em 2013, após o trágico Desabamento do Rana Plaza, que expôs ao mundo as condições precárias da indústria da moda.
Fundado por Carry Somers e Orsola de Castro, o movimento chegou ao Brasil em 2014, liderado por Fernanda Simon, consolidando-se como instituto em 2018.
Hoje, mobiliza milhares de pessoas em todo o país durante sua semana anual, promovendo conscientização, transparência e responsabilidade na cadeia produtiva da moda.
Um ecossistema que impulsiona a mudança
A VEJA, que já nasceu com o propósito de reinventar o tênis a partir de uma cadeia produtiva mais justa e transparente apoiou o evento e sorteou um par de seus produtos. A marca utiliza matérias-primas ecológicas como algodão agroecológico do Brasil e do Peru, borracha nativa da Amazônia, couro de propriedades orgânicas do Rio Grande do Sul e do Uruguai e PET reciclado de garrafas pós-consumo. No Brasil desde 2013, a VEJA segue investindo seus esforços em desenvolver e encontrar materiais, tecnologias e processos mais justos e ecológicos.

A plataforma Sustentável Beleza conta com o apoio institucional do Instituto Capitalismo Consciente, uma organização que desempenha um papel estratégico na transformação da cultura empresarial.

Com um ecossistema que reúne mais de 100 empresas e cerca de 8 mil pessoas engajadas no Brasil, o instituto atua na promoção de modelos de negócio mais éticos, sustentáveis e orientados por propósito.

O Istituto Europeo di Design São Paulo, instituição de ensino superior nas áreas de Moda e Design, integrante do grupo educacional internacional IED, com sedes na Itália, Espanha e Brasil, apoiador de iniciativas que fomentam o desenvolvimento e a disseminação do conhecimento nos campos da moda, do design e das artes no Brasil.

Conheça a filial brasileira do The Climate Reality Project, organização global criada pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Nobel da Paz, Al Gore, em 2006. Presente em 12 países e regiões-chave, conta com uma rede de mais de 50 mil voluntários pelo mundo, sendo mais de 4 mil localizados no Brasil. Aqui, o The Climate Reality Project, é representado pelo Cento Brasil no Clima.




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