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Âncora 2
Âncora 1

Por que somos a única espécie que precisa discutir a própria sobrevivência?

  • há 14 minutos
  • 3 min de leitura
Como salvar o planeta - É conosco
Ilustração criada com IA

Baleias não organizam congressos sobre a preservação dos oceanos, onças não criam comitês para proteger as florestas e tampouco abelhas produzem relatórios sobre biodiversidade.


Todas as espécies respeitam o ambiente que torna sua existência possível. Nós somos a única exceção.


Criamos um modo de viver que consome e esgota recursos naturais e agora precisamos tratar da nossa própria sobrevivência em conferências internacionais, políticas públicas, relatórios corporativos, estratégias de marketing e debates intermináveis nas redes sociais.


Isso diz mais sobre nós do que sobre o planeta, como mostra nossa história recente.


Em 1900, a população mundial era de aproximadamente 1,6 bilhão de pessoas. Hoje somos cerca de 8,3 bilhões. Em pouco mais de um século, multiplicamos nossa presença sobre a Terra por mais de cinco vezes. Ao mesmo tempo, construímos um modelo de desenvolvimento baseado em produzir, consumir e descartar em uma velocidade que nenhum sistema natural consegue acompanhar.


O plástico talvez seja o maior símbolo dessa transformação. Quando começou a ocupar as casas, na década de 1950, representava inovação, praticidade e progresso. Poucas décadas depois, a humanidade já produziu cerca de 9 bilhões de toneladas desse material e continua gerando centenas de milhões de toneladas de resíduos plásticos todos os anos. Boa parte permanecerá no ambiente por séculos, fragmentando-se em partículas cada vez menores, presentes hoje na água, nos alimentos e até no corpo humano.


Mas o problema nunca foi o plástico, o carbono, o petróleo ou a tecnologia.


O verdadeiro problema é imaginar que um planeta finito possa sustentar um modo de vida desenhado para crescer infinitamente.


Durante muito tempo acreditei que essa era, sobretudo, uma questão de comportamento. Escrevi artigos, fiz palestras e produzi documentários, defendendo que a comunicação precisava ajudar a transformar consciência em ação. Continuo acreditando nisso, mas percebo que existe uma camada ainda mais profunda.


Talvez o comportamento não seja a origem da crise, mas sim sua consequência.


O que realmente molda nossas escolhas são as histórias que contamos sobre o que significa viver bem.


Compramos muito mais do que produtos. Compramos pertencimento, reconhecimento e identidade. Compramos a promessa de uma vida melhor. Durante décadas, aprendemos que prosperidade significava possuir mais, trocar mais, acelerar mais, consumir e descartar mais. Não nascemos desejando isso. Aprendemos a desejar isso, e aprendemos muito bem.


A comunicação, a publicidade, o entretenimento, o design, a arquitetura e as marcas ajudaram a construir esse imaginário. Não criaram sozinhos a sociedade de consumo, mas deram a ela linguagem, símbolos e desejo.


Talvez por isso a maior crise do nosso tempo, mais do que ambiental é uma crise de imaginação.


Sabemos medir emissões de carbono, mas ainda não sabemos imaginar uma sociedade próspera que não dependa de um modelo que produz carbono, consome recursos e gera desperdício.


Desenvolvemos tecnologias capazes de conectar bilhões de pessoas instantaneamente, mas seguimos presos à ideia de que felicidade depende de consumir cada vez mais. Falamos diariamente sobre inovação, enquanto repetimos um modelo de desenvolvimento concebido para um planeta muito menos povoado, muito menos pressionado e muito menos explorado.


Nenhuma outra espécie constrói seus desejos por meio de narrativas.


Toda sociedade protege aquilo que considera valioso e é exatamente aí que começa a sustentabilidade. Quando decidimos revisar aquilo que aprendemos a admirar.


Talvez o maior desafio da comunicação neste século não seja convencer as pessoas a consumir de forma mais consciente, mas ajudar a humanidade a desejar um futuro diferente daquele que ela passou os últimos cem anos aprendendo a admirar.


A pergunta, então, deixa de ser como salvar o planeta. O planeta continuará seu curso, mesmo sem a nossa presença.


Seremos capazes de imaginar e desejar um modo de viver que nos permita continuar existindo?

The Climate Reality Project - É conosco

Conheça a filial brasileira do The Climate Reality Project, organização global criada pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Nobel da Paz, Al Gore, em 2006. Presente em 12 países e regiões-chave, conta com uma rede de mais de 50 mil voluntários pelo mundo, sendo mais de 4 mil localizados no Brasil. Aqui, o The Climate Reality Project, é representado pelo Cento Brasil no Clima.

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