As fronteiras planetárias exigem de nós o fim da prosperidade baseada no acúmulo
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Durante muito tempo, prosperidade foi tratada como um conceito técnico. Crescer o PIB, ampliar mercados, acelerar cadeias produtivas, aumentar o consumo. Essa lógica funcionou enquanto os limites do planeta pareciam distantes e a natureza, inesgotável. Hoje, essa conta chegou na forma de eventos climáticos extremos, escassez de recursos, poluição disseminada e perda acelerada de biodiversidade.
Que ideia de vida boa estamos ensinando às próximas gerações?
A crise climática não é apenas resultado de tecnologias poluentes ou decisões energéticas equivocadas. Ela é consequência direta da ideia de prosperidade que normalizamos. Um modelo que associa vida boa a consumo crescente, mobilidade excessiva, descartabilidade e expansão contínua, mesmo quando os sinais de colapso se acumulam.
Se quisermos enfrentar a emergência climática com alguma chance de sucesso, precisamos ir além das soluções técnicas. Precisamos redefinir o que chamamos de sucesso coletivo. E isso passa, inevitavelmente, pelo imaginário que estamos transmitindo às próximas gerações.
Hoje, ensinamos, muitas vezes sem perceber, que a natureza é cenário, não condição.
Nem percebemos que estamos ensinando que progresso é ter mais carros nas ruas, mais objetos dentro de casa, mais velocidade, mais estímulos. Que natureza é cenário, não condição. Que áreas verdes são “extras”, não infraestrutura vital. Que o tempo gasto ao ar livre é lazer, não parte essencial da vida.

O fotógrafo Gregg Segal, em 2015 criou o projeto "7 Days of Garbage", ao descobrir que o cidadão norte-americano médio gerava por volta de 13 quilos de lixo por semana, convidou familiares, amigos e vizinhos para guardarem o seu lixo e materiais recicláveis por sete dias e então, os fotografou entre seus resíduos.
Essa visão de mundo tem impacto direto sobre o clima. Cidades desenhadas para carros emitem mais, aquecem mais e adoecem mais. Cadeias produtivas orientadas pelo descarte geram montanhas de resíduos e pressionam ecossistemas inteiros. A busca incessante por novidades acelera a extração de recursos e encurta o ciclo de tudo, inclusive da própria natureza.
Redefinir prosperidade não é um exercício filosófico. É uma estratégia climática.
Uma outra lógica já começa a se desenhar. Prosperar passa a significar viver em ambientes menos poluídos, com mais áreas verdes, ar respirável e água limpa. Significa cidades caminháveis, mobilidade ativa, alimentos produzidos com menos impacto e mais vínculo com o território. Significa acesso à natureza como direito, não privilégio.
Nesse novo mapa, qualidade de vida deixa de ser medida apenas por renda ou consumo e passa a incluir critérios ambientais claros: conforto térmico sem desperdício energético, silêncio em vez de ruído constante, sombra em vez de concreto, durabilidade em vez de descarte rápido. São escolhas que reduzem emissões, mas também aproximam a vida urbana daquilo que é essencialmente humano.
Sustentabilidade não é um “tema ambiental”. É um projeto de sociedade onde o que é desejável, é o melhor para todos no presente e no futuro
Que referências estamos oferecendo hoje?Uma infância cada vez mais confinada em ambientes fechados e telas? Ou contato cotidiano com árvores, água, terra e ciclos naturais?Um ideal de sucesso baseado em posse e status? Ou em pertencimento, cuidado e equilíbrio com o entorno?
As próximas gerações não herdarão apenas um clima mais instável. Herdarão também os valores que usamos para tomar decisões agora
Se continuarmos tratando a natureza como obstáculo ao crescimento, ensinaremos que devastar é normal. Se passarmos a tratá-la como condição para a vida, ensinaremos limites, responsabilidade e interdependência.
A transição climática começa quando mudamos o critério. A pergunta “quanto isso gera?” passa a ser “que tipo de mundo isso constrói?”
Redefinir prosperidade é escolher um futuro em que viver bem não signifique destruir o que nos sustenta.
Mais do que uma mudança de discurso, trata-se de uma mudança de direção. Uma direção que reconecta desenvolvimento à natureza, progresso à permanência e sucesso à capacidade de garantir vida digna, hoje e amanhã.

Conheça a filial brasileira do The Climate Reality Project, organização global criada pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Nobel da Paz, Al Gore, em 2006. Presente em 12 países e regiões-chave, conta com uma rede de mais de 50 mil voluntários pelo mundo, sendo mais de 4 mil localizados no Brasil. Aqui, o The Climate Reality Project, é representado pelo Cento Brasil no Clima.
