O que você faz quando ninguém está olhando?
- É conosco

- há 18 horas
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As escolhas silenciosas do nosso cotidiano talvez sejam aquelas que mais moldam o mundo em que vivemos e quase nunca percebemos isso.
Quando ninguém está olhando, o que orienta suas escolhas? O hábito? A pressa? O desejo de pertencer? O conforto? Ou algum tipo de cuidado silencioso com o mundo que você ajuda a sustentar?
Fomos ensinados a acreditar que as grandes mudanças dependem sempre de instâncias distantes: governos, empresas, tecnologias, acordos internacionais. E, de fato, dependem. Mas essa narrativa, quando vira desculpa, também nos afasta de uma pergunta mais delicada e talvez mais transformadora:
Como eu participo, todos os dias, daquilo que critico?
Porque o sistema em que vivemos não se mantém apenas por estruturas visíveis. Ele se sustenta porque se tornou cotidiano. Normal. Desejável. Ele se reproduz não só nas fábricas, nos bancos ou nas leis, mas naquilo que admiramos, no que escolhemos, no que deixamos passar sem questionar.
Não é só o que compramos. É o que celebramos.
Talvez por isso a ideia de que “minhas escolhas não fazem diferença” seja tão confortável. Ela nos protege do incômodo de perceber que, mesmo sem querer, fazemos parte da engrenagem. E, ao mesmo tempo, nos impede de reconhecer algo igualmente verdadeiro: fazemos parte também da possibilidade de mudança.
Sustentabilidade começa antes do gesto técnico
Sustentabilidade costuma ser apresentada como um conjunto de gestos técnicos: reciclar, economizar, compensar. Tudo isso importa. Mas não toca o centro da questão. Porque a crise que vivemos não é apenas ambiental. É uma crise sobre como organizamos o desejo, o tempo, o sucesso e a própria ideia de uma vida boa.
Sustentabilidade, em seu sentido mais profundo, não é só reduzir impactos. É reorganizar prioridades para que caibam dentro dos limites da Terra, e dentro dos limites da própria vida humana.
Isso desloca o olhar.
Deixa de ser apenas sobre trocar produtos e passa a ser sobre rever sentidos. Perceber quando o consumo vira anestesia e o excesso se disfarça de realização.
As culturas não se transformam por um gesto isolado, mas quando certos comportamentos deixam de ser exceção e passam, pouco a pouco, a ser reconhecidos, compartilhados, legitimados. Quando aquilo que parecia estranho começa a parecer sensato. Quando o que era visto como ingenuidade começa a ser visto como cuidado.
Durante muito tempo, fumar foi charme. Depois virou vício. Depois virou problema coletivo.
O plástico descartável foi modernidade. Depois conveniência. Depois virou problema coletivo (descarte e saúde).
Essas mudanças não começaram com decretos. Começaram quando algo mudou no modo como as pessoas viam, sentiam e julgavam aquilo.
As escolhas individuais contam não porque salvam o mundo sozinhas, mas porque moldam o que uma sociedade passa a considerar aceitável.
Talvez a pergunta mais honesta que possamos nos fazer não seja “o que posso fazer para salvar o planeta?”, mas algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo:
Que tipo de mundo estou ajudando a tornar normal com as minhas escolhas diárias?
Na forma como lidamos com o tempo, com o dinheiro, com o trabalho, com o consumo, com os outros e com nós mesmos.
Não temos respostas prontas, nem modelos de comportamento perfeito, mas precisamos formular perguntas melhores. Perguntas que não nos colocam acima do problema, mas dentro dele, como parte da travessia.
Porque, no fim, não é só sobre carbono. É sobre tempo, sobre atenção e sobre o que escolhemos proteger, valorizar e reproduzir enquanto sociedade.
E isso, gostemos ou não, começa exatamente onde ninguém está olhando.

Conheça a filial brasileira do The Climate Reality Project, organização global criada pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Nobel da Paz, Al Gore, em 2006. Presente em 12 países e regiões-chave, conta com uma rede de mais de 50 mil voluntários pelo mundo, sendo mais de 4 mil localizados no Brasil. Aqui, o The Climate Reality Project, é representado pelo Cento Brasil no Clima.




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