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Âncora 2
Âncora 1

Pessoas e natureza podem prosperar conjuntamente, atuando com base na ciência


 Samuel Barreto, Gerente Nacional de Água da The Nature Conservancy
Samuel Barretto - TNC

É conosco conversou com Samuel Barreto, Gerente Nacional de Água da The Nature Conservancy (TNC) e do Movimento Água para São Paulo - MApSP.


A TNC é uma organização não governamental de meio ambiente, que esse ano completa 35 anos no Brasil, cuja missão é proteger as águas e as terras das quais a vida depende. É uma missão complexa e grande, mas ele acredita que pessoas e natureza podem prosperar conjuntamente, atuando com base na ciência.


Samuel nos explicou que desde os 14 ou 15 anos já sabia que queria trabalhar com natureza, mas não sabia exatamente o quê. Com 16 anos, tornou-se voluntário de uma ONG chamada Centro de Estudos Ambientais para a Conservação da Natureza, e ali, aconteceu uma primeira vitória, que foi a proibição da caça aos cetáceos no Brasil.


É conosco – Como você se transformou em um Especialista de Água?


Samuel Barreto: A proibição da caça aos cetáceos me inspirou muito, e na faculdade, fui para área de biologia, ciências biológicas, e lá, para a área de “limnologia” (estudo da ecologia de águas continentais, como rios, riachos e lagoas), e acabei me especializando nessa área.


Logo que eu me formei, comecei a trabalhar na fundação SOS Mata Atlântica, formando grupos de monitoramento de água, grupos de educação ambiental, dando voz aos diversos atores que atuavam ali na bacia do Rio Tietê, ao longo de mais de 55 municípios e mais de 1.100 km de rios, só do Rio Tietê. Um desses representantes de grupo é o Rodrigo Agostinho, que hoje é o presidente do Ibama.


Depois eu ainda fui fazer mestrado em sustentabilidade, na SOS mata Atlântica, podendo ter a oportunidade de trabalhar com projetos de educação, monitoramento hidrológico, conservação, recuperação ambiental. Dalí fui para o WWF, também com essa agenda de segurança hídrica e conservação de água.


Proteger a Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.


Agora na TNC, recentemente Samuel acabou mudando de função, não só mais cuidando da agenda de água com as questões de conservação, restauração, governança e inclusão, mas também incluindo a questão de sistemas de alimentos. Incorporando agricultura agropecuária, olhando para essa questão do desmatamento, atuando com essas cadeias produtivas, para chegar no objetivo ideal de desmatamento zero no Brasil, protegendo a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica.


É conosco – O que você pensa sobre essa era de incertezas climáticas que estamos vivendo?


Samuel Barreto: As mudanças climáticas estão aí é, e uma das evidências que temos é aquilo que tem sido confirmado com vários fatos. Os especialistas do Painel intergovernamental das Mudanças Climáticas mostram que a gente já está tendo um aumento da frequência e da intensidade dos extremos climáticos que podem der vistos muito bem dentro do tema água, com excesso ou com a falta.


Então é preciso criar os mecanismos de estancar essa emissão (de gases do efeito estufa) que está nos levando a uma rota de colisão, não só de consumo dos recursos naturais, mas de aquecimento no planeta e alguns cenários são muito preocupantes.


Mudanças climáticas - terras secas

O último relatório do IPCC mostra que existe a probabilidade muito grande de um aumento da temperatura entre 3.7 e 4.5 graus no final do século, entre 2080 e 2100.


Isso vai mudar completamente uma série de coisas como padrão de precipitação, umidade do solo, produção de alimentos e segurança hídrica, afetando a todos, sem distinção.


O que a gente chama de crise hídrica é uma crise de governança


A crise hídrica não é necessariamente uma crise de falta de água, porque os mecanismos de governança podem mitigar e muito a questão da forma de uso, da alocação desse uso, do plano de recuperação e de conservação de uso sustentável.


Pelo fato de usarmos mais água do que temos capacidade de repor, de degradação de nossos sistemas naturais, combinado com o desmatamento, com os efeitos das mudanças climáticas, também tem acontecido um aumento muito significativo desses extremos climáticos ao longo dos anos.


Então é acho que essa é uma reflexão importante, trazer mais do que a crise hídrica também a combinação de uma crise de falta de governança que leva a uma locação equivocada de água, um uso exagerado e a não implementação de medidas que possam não só mitigar os efeitos danosos desses impactos, mas, principalmente, construir uma agenda favorável de adaptação, de proteção de segurança hídrica para todos.


A questão da falta do saneamento no Brasil, é uma questão perversa


Mais de 35 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e cerca de metade da população não tem acesso à coleta e ao tratamento de esgoto. Existem dados já consolidados, como os dados da Organização Mundial da Saúde que mostram que, para cada dólar que deixa de ser investido no saneamento, você gasta de 4 a 5 vezes mais no hospital, da pior forma possível, com as pessoas doentes, e esses custos chegam numa relação de um para 45, que tem o custo social dos dias que essas pessoas deixam de trabalhar, o recurso necessário para recuperação das águas, entre outros fatores de perdas econômicas.


Samuel Barreto, Gerente Nacional de Água da The Nature Conservancy (TNC) e do Movimento Água para São Paulo - MApSP.

Existe solução, tem um novo Marco do Saneamento, que gerou algumas polêmicas, mas o fato é que há uma agenda positiva de quase um trilhão de reais que podem ser investidos no Brasil, recuperando as nossas águas dos mais de 115 mil km de rios comprometidos, podendo gerar emprego, podendo gerar desenvolvimento social, econômico, podendo criar um pilar fundamental para a economia do país, que é a questão da água, da segurança hídrica.


Para isso, é preciso vontade política, é preciso segurança jurídica e pressão da sociedade para que essa agenda possa ser acompanhada da melhor forma possível, evitando desvios de recurso, ineficiências e, incluir nessa agenda as soluções baseadas na natureza, tanto na questão do saneamento quanto na questão do tratamento da água, na proteção e recuperação dos nossos mananciais.


É conosco: as águas doces são consideradas em 5 classes de água. Esta classificação é eficiente e correta ou está desconectada da nossa realidade?


Samuel Barreto: Essa classificação das águas é dada por uma resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), estabelecidas como Classe Especial, Classe 1, Classe 2, Classe 3 e Classe 4, saindo da Classe Especial de melhor qualidade, para uma classe de pior qualidade que é classe 4. E a classe 4 praticamente é 1. A gente está falando de um Rio morto. O como o Rio Tietê, que passa pela cidade de São Paulo. A proposta de muitas instituições, inclusive uma que eu considero, é a extinção dessa classe de água, estabelecendo aí um plano de transição, com investimentos onde seja possível o enquadramento para cima dos nossos corpos hídricos, transferindo os rios que existem até hoje de classe 4 para a classe 3. Depois, se possível, para a classe 2, isso traria um benefício fantástico para toda a sociedade brasileira, porque isso significa é saúde para as pessoas, acesso a água, um direito de inclusão, segurança hídrica na medida que você também acaba ofertando mais água para os usos múltiplos, com a proteção do meio ambiente e ao mesmo tempo com um uso mais efetivo do nosso recurso, principalmente o público, mas também do recurso privado que é quem paga por isso.


No final do dia, acaba sendo a sociedade quem paga


Samuel acredita que é muito importante ter um plano de transição, essa discussão passando dentro do Conama e do Conselho Nacional dos Recursos Hídricos, com os comitês de bacia, que hoje no Brasil, são mais de 240 comitês em nível federal e estadual, podendo atuar por essa melhoria e ao mesmo tempo, identificando essa arquitetura financeira que permita os investimentos na recuperação das nossas águas.


A má qualidade da água aumenta o risco hídrico


Não é à toa que as crises hídricas são consideradas como um dos principais riscos globais, segundo o Fórum Econômico Mundial, porque acaba gerando aquilo que a gente chama de um “ativo encalhado”, como por exemplo, a represa Billings. Durante a crise hídrica de São Paulo, acho que todos lembram bem, a represa Billings estava bastante cheia, mas sem a possibilidade, na sua grande maioria, de fazer uso para abastecimento doméstico, por ter se tornando um reservatório completamente poluído. Na medida que foi bombeada para a represa, tanto a água do Rio Tietê quanto a água do Rio Pinheiros, para uma transferência de água para a baixada santista para gerar energia.


Hoje a gente paga o custo desse processo. A não coleta e tratamento dos resíduos que acabam indo para o rio, comprometem as nossas águas e é o que a gente chama de “ativo encalhado”. Está lá, mas sem a possibilidade de qualquer tipo de uso.


O Observatório de Governança das Águas tenta fortalecer essas políticas públicas, especialmente a relacionada aos recursos hídricos, porque ela acaba sendo uma agenda propositiva de organização na alocação dos recursos hídricos, na medida que enquadra as águas estabelecendo planos de melhoria alocados no plano de bacia, com a cobrança pelo uso da água.


É um espaço representativo, participativo, porque ali estão governos, usuários de água, públicos ou privados e a sociedade civil. É um espaço importante de Governança e de várias boas práticas que conseguiram fazer essa transformação.


A gente observa alguns padrões. Um deles é essa participação coletiva entre os diversos setores, esses mecanismos de governança estabelecido no longo prazo, como por exemplo no Rio Jundiaí, feito inicialmente pelo consórcio do Piracicaba, depois pelo comitê de bacia que reúne os diversos atores públicos privados da sociedade, com investimentos de longo prazo, transformando o rio de classe 4 em um rio de classe 3, mediante ao seu tratamento. Um dos benefícios que isso trouxe foi o de algumas cidades poderem fazer a coleta de água no rio, no período mais seco da história do estado de São Paulo, possibilitando o abastecimento de dezenas de milhares de pessoas na região.


É um dos exemplos, que mostram que a gente tem que continuar avançando para esse fortalecimento da política pública de recursos hídricos e saneamento e outras ações correlatas.


É fundamental que a sociedade civil participe, conheça e faça a sua parte, que começa com a nossa consciência


Nossa mudança de atitude dentro da nossa casa podendo ampliar o nosso raio de ação, de influência e de impacto, sendo voluntário, fazendo escolhas corretas, participando de movimentos de organizações dos próprios comitês de bacia, cada um fazendo a sua parte.


Para finalizar, ao mesmo tempo que nós temos uma série de desafios, a gente também tem uma série de oportunidades. Essa é a década da ação. É a década da restauração, o Pacto de Restauração da Mata Atlântica, fez um levantamento mostrando que a restauração a cada 2 hectares e meio gera um emprego direto.


No Brasil que a gente tem uma demanda só de base legal, de código Florestal, de recuperação de mais de 22 milhões de hectares dá para imaginar a cadeia produtiva que está por trás disso, podendo gerar serviços ecossistêmicos, múltiplos benefícios desde a conservação, recuperação ambiental, mitigação às mudanças climáticas, adaptação na mitigação desses riscos climáticos, segurança hídrica, lazer, navegação, atividade produtiva e melhoria da qualidade de vida da população. Mas para isso é preciso ter também um entendimento, uma urgência nessas decisões, especialmente as políticas, mas com pressão da sociedade, para que essa engrenagem possa a acelerar e correr na medida que é preciso.


“A gente entende que ninguém sozinho vai dar conta desse desafio enorme”

Samuel conclui dizendo que a TNC é uma instituição, não confrontacional, baseada em ciência, que cumpre um papel de agregar valor, aglutinar esforços e procurar soluções inovadoras e transformadoras, que possam dar escala, gerar impacto e velocidade necessária.




Assista a um trecho das gravações do documentário Campo e Sustentabilidade onde Samuel Barreto falou sobre o arcaico modelo de captação de água que ainda usamos.

 




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